A Importância do Fracasso

//A Importância do Fracasso

A Importância do Fracasso

Por mais que se prepare, o empreendedor vai acabar cometendo erros: esses fracassos são esperados e representam uma importante fase do seu aprendizado

Vários estudos já foram publicados sobre os motivos pelos quais as empresas não conseguem dar continuidade às suas operações e acabam por fechar as portas. O tema costuma despertar o interesse de pesquisadores em qualquer lugar do mundo, dadas as altas taxas de mortalidade de pequenas e médias empresas.1 A maioria desses estudos não só é inconclusiva como também não consegue chegar a um denominador comum, até porque uma empresa pode fechar as portas por tantos motivos diferentes que podemos dizer que dar certo pode ser considerado a exceção e quebrar, a regra. Mas isso não representa necessariamente um fracasso. Um negócio pode ser descontinuado porque foi vendido para outra empresa maior. Ou o empreendedor pode encerrar um negócio por motivos pessoais, para se dedicar a outra atividade, por exemplo.

O conceito de fracasso, aqui no nosso caso, é quando o empreendedor não tem mais opções de soluções para manter sua empresa viva e não vê outra saída a não ser se desfazer do negócio.

Se perguntarmos a um ex-empreendedor os motivos que o levaram a fechar o seu negócio, as respostas vão girar em torno da falta de dinheiro, ou capital de giro. Só que isso é uma consequência de outra causa, que poucos realmente sabem qual é. Podemos continuar perguntando para descobrir: por que faltou dinheiro? Porque não conseguiu vender. E por que não conseguiu vender? Os clientes não vieram. Por que os clientes não vieram? Por que o produto é ruim? Por que o atendimento é fraco? Por que o produto não chegou no prazo? E assim por diante, quanto mais perguntarmos, maior a chance de descobrir a real causa do problema.

Fatores externos, como a entrada de um concorrente maior, ou macroeconômicos, como mudanças nas taxas de juros, variações cambiais, mudanças na legislação, alterações no comportamento do consumidor etc., são outros motivos citados. Mas, se assim fosse, outras empresas do mesmo setor também teriam quebrado. Embora isso possa acontecer de vez em quando, como fenômeno econômico típico e até necessário para que um setor se estabilize e se consolide, não justifica o fracasso de uma empresa. Por orgulho ou imaturidade, muitos empreendedores caem na armadilha de jogar a culpa em elementos fora do seu controle. Se o empreendedor caiu onde outros, sob as mesmas ameaças, sobreviveram, existia mais alguma coisa errada na empresa dele.

Apesar disso, algumas desgraças podem de fato acontecer sem nenhuma culpa do empreendedor. Uma inundação, um incêndio ou qualquer desastre natural entram nessa categoria, assim como uma greve externa à sua companhia. Fatos inesperados de grandes proporções podem quebrar qualquer negócio, por mais detalhado que tenha sido o planejamento. Empreendedores que conseguem superar essas dificuldades crescem com o processo de recuperação, ficam mais calejados e adquirem mais estrutura emocional.

Existem também os fatores internos. Se os clientes desaparecem, pode ser por causa de mau atendimento, produtos de má qualidade, localização ruim, marketing ineficiente, distribuição falha, inexistência de pós-venda. Da mesma forma que os motivos externos, também dá para culpar funcionários, sócios, parceiros, mas poucos são os que admitem a razão que verdadeiramente está por trás de quase todos os fracassos: a falta de competência do empreendedor em superar essas e outras dificuldades que surgem ao longo da vida do negócio.

Essa é uma dura realidade, sobretudo porque o empreendedor depende da autoconfiança para acreditar que seu negócio vai dar certo. Mas ela também pode impedi-lo de ver o óbvio: ele pode não ter sido o responsável por todas as vicissitudes e provações pelas quais o negócio passa, mas é dele a responsabilidade de encontrar soluções. Cabe ao empreendedor ter a coragem de trocar pessoas que não estão indo bem, arrumar alguém para comprar a parte de um sócio com quem vive em conflito, buscar um novo lugar para sua loja, trocar a agência de marketing responsável por uma campanha pífia, gerar reservas de caixa para superar fases de crise no setor, explorar novos caminhos para compensar a entrada de um concorrente no mercado, contratar um fornecedor mais confiável.

Por mais que o empreendedor se prepare, estude, planeje, vai acabar cometendo erros. Eles são até esperados e representam uma importante fase do aprendizado. Na maior parte das vezes, os erros não são, ou não deveriam ser, tão grandes a ponto de afundar uma empresa. Da mesma forma, em muitos casos, o erro pode ser o único jeito de aprender algo sobre o setor ou sobre seu negócio. Quando o grau de incerteza é muito alto, é preciso experimentar uma ação. Quando as tentativas são realizadas sob riscos calculados, ao darem errado, elas mostram ao empreendedor como não fazer as coisas. Há, por fim, as falhas recorrentes, que muitas vezes são chamadas de perseverança, como se fosse uma qualidade e não um defeito – o que é pior.

A seguir, as cinco incapacidades de um empreendedor que podem levá-lo a cometer erros.

Incapacidade de perceber

O empreendedor fica tão focado naquilo em que acredita ou em executar o plano que traçou, que se torna cego e surdo ao que acontece à sua volta. Se isso levasse apenas à perda de oportunidades, o problema seria menor, mas o empreendedor deixa de ver ameaças que vão comprometer a qualidade de suas decisões.

Incapacidade de admitir seus erros

Por ser visto como líder, o empreendedor tem muita dificuldade em admitir quando tomou uma decisão errada. E não é por excesso de orgulho que ele tem essa dificuldade de reconhecer; é pelo excesso de insegurança. Aceitar que pode ter tomado um caminho errado é um sinal de maturidade e um passo importante no processo de autoconhecimento.

Incapacidade de ler as pessoas

Não importa se são clientes, parceiros, fornecedores ou funcionários. Lidar com pessoas está no dia a dia da empresa. Se o produto é fantástico, o mercado potencial é enorme e o modelo de negócio está bem estruturado, o ponto fraco geralmente é a incapacidade de o empreendedor compreender como as pessoas reagem a ele. Muitos empreendedores se julgam superiores às demais pessoas e agem de forma intolerante, irresponsável e inconsequente com aqueles que os ajudam a conduzir o seu negócio. As consequências são devastadoras, pois eles erram na contratação, na recompensa, nas parcerias e sociedades. Qualquer falha dessas, em tempos de carência de mão de obra qualificada, pode ser fatal para o negócio.

Incapacidade de aprender

Desde que começa a desenvolver o seu negócio, o empreendedor aprende muito. Sua motivação e entusiasmo o levam a dedicar horas e horas lendo, estudando, fazendo cursos, falando com pessoas. Com o negócio rodando, ele se envolve tanto nas operações que acaba não tendo tempo para continuar aprendendo. A maior parte do aprendizado vem depois que o negócio começa. Falta de tempo é apenas uma desculpa. O excesso de autoconfiança é a causa principal desse problema.

Incapacidade de gerir

O empreendedor também pode fracassar por falta de capacidade de gestão. Isso não quer dizer que basta dominar as técnicas e ferramentas de administração, mas saber como aplicá-las a cada tipo específico de negócio e como explorá-las diante das circunstâncias.

O fracasso, assim, se não serve como aprendizado, deve ser entendido como autoconhecimento. Identificar idiossincrasias e peculiaridades de comportamento ajuda a detectar suas forças e fraquezas. E, para os pontos que não podem ser melhorados, e nem todos podem, o empreendedor deve chamar pessoas que dominam essas competências e complementam suas limitações. Ninguém constrói sozinho um negócio de sucesso. Assim, quem tem dificuldade de lidar com pessoas pode ter um sócio que assuma o papel de líder e comunicador. Quem não gosta da parte administrativa pode contratar um executivo para gerenciar a empresa. Quem não é bom com vendas pode trazer para a equipe um vendedor experiente.

Os motivos por trás dos negócios que quebram vão cair sempre na figura do empreendedor. O empreendedor pode pôr a culpa em um gerente, em uma máquina falha, na qualidade de um fornecedor, em um calote que levou do cliente, em um incêndio. Tudo isso são formas de mascarar suas incapacidades. Por isso, se o empreendedor não souber tirar lições do fracasso e dos erros que comete, vai impor ao seu negócio restrições ao crescimento e à sobrevivência decorrentes de sua incapacidade de evoluir e se desenvolver no mesmo  ritmo que o negócio exige.

 

Por Marcos Hashimoto

 Fonte: http://app.cadernosglobo.com.br/volume-08/empreenda.html#artigo-07

2017-11-12T21:46:03+00:00 By |Novidades|0 Comments